Voto de Recomendação para Criação do Espaço Museológico da Horta dos Cabos Submarinos


Há 121 anos lançava-se na ilha do Faial o primeiro cabo submarino. Longe se estava de imaginar que pouco tempo depois se iniciaria nesta ilha uma internacionalização da rede de cabos submarinos no atlântico norte com a instalação de umas das maiores estações de companhias de cabos submarinos, a partir da Horta, que perdurou por largas dezenas de anos, projectando por todo o mundo o nome não só do País, mas também da Região, da Ilha do Faial e da cidade da Horta.

A história das redes dos cabos submarinos tem de ser necessariamente avaliada pelo valor patrimonial, pelo legado histórico, científico, tecnológico e ainda pela natureza cultural e social que marcou a vivência de um País e da nossa Ilha em particular, considerando as companhias de diferentes países que cá se instalaram.

A presença destas companhias tinha, como centro de operações, o edifício da estação telegráfica construído em 1902 com o propósito de albergar as primeiras companhias que se instalaram na cidade da Horta, a partir de 1900 (a inglesa European and Azorean Telegraph Company, mais tarde, Cable and Wireless, a americana Commercial Cable Company e alemã Deutsch-Atlantische Telegraphengesellschaft).

Em função dessa tripolaridade passou a ser designada por “Trinity House”, nome pelo qual ainda se conhece o edifício que se mantém até hoje na Rua Cônsul Dabney e que, após o encerramento da actividade das ditas companhias e até ao presente, tem sido casa de vários estabelecimentos de ensino que aí funcionaram.

Acontece que, desde, pelo menos, o ano de 2009, um grupo de antigos cabografistas, associados no Grupo de Amigos da Horta dos Cabos Submarinos e apoiados pela Associação dos Antigos Alunos do Liceu da Horta, têm desenvolvido uma série de iniciativas para preservarem esta herança, um património que é de todos e para todos.

E fazem-no com cuidado e qualidade, garantindo que a sociedade e as instâncias políticas valorizem a importância histórica da época dos cabos submarinos, conseguindo o reconhecimento de interesse público do património do cabo submarino desta ilha do Faial e recuperando diverso material tecnológico de telegrafia submarina, avaliando-o e inventariando-o num total de cerca de 740 peças.

E a verdade é que esta iniciativa cívica tem produzido frutos: desde então, há um interesse crescente e uma maior consciencialização de que este é um projecto que não se pode compadecer com mais delongas.

De facto, para além dos muitos estudos e compilações dos diversos colóquios que têm vindo a acontecer e a suscitar o interesse das mais variadas pessoas e instâncias e, inclusive de diversas gerações, pela qualidade e diversidade das personalidades que têm colaborado nos mesmos, o certo é que aqueles directamente envolvidos, os antigos funcionários das companhias espalhados pelo mundo, são o testemunho vivo, o pedaço de história viva e constituem, por isso, um valor acrescentado a qualquer museu que se pretenda instalar.

E esta pretensão é possivelmente a maior que este movimento pretende: instalar na “Trinity House” o Museu do Cabo Submarino do Faial.

Apesar dos compromissos assumidos pelo Governo Regional em ceder a “Trinity House” para a instalação do Núcleo Museológico do Cabo Submarino e de inclusive no  Plano e Orçamento Regional para este ano de 2014 ter inscrito uma verba para a instalação de um núcleo museológico dos cabos submarinos naquele edifício, dando assim corpo a uma promessa feita pelo anterior Governo Regional liderado por Carlos César, destinando €20.000,00 (vinte mil euros) à concretização do projeto deste Núcleo Museológico, o certo é que até hoje essa promessa ainda não se materializou e rapidamente chegaremos a 2015 sem que haja qualquer evolução.

A própria Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores através da resolução n.º 3/2014/A sobre a criação do espaço museológico da Horta dos cabos submarinos, atendendo à pertinência e urgência que este assunto reveste, considerou que “muito do alcance deste património se perderá caso não haja a ambição duma perspectiva mais global, resumindo-se a musealização proposta apenas a uma dimensão local, sem reflectir, dessa forma, o sentido de rede mundial dos museus congéneres e, assim, projectando-se numa imagem forte da importância internacional dos Açores, neste tempo pioneiro da telegrafia submarina”.

E é esse o espírito que preside às reivindicações ou aspirações do Grupo de Amigos da Horta dos Cabos Submarinos, da Associação dos Antigos Alunos do Liceu da Horta e a todos aqueles, que de uma forma ou outra, se têm associado e interessado em preservar e resgatar a memória desta importante época que marcou para sempre a vivência desta ilha e deste País, num contexto internacional.

É pois de saudar as iniciativas que têm conseguido alargar os horizontes dos planos iniciais, dando azo a cooperação e relações com entidades nacionais e estrangeiras com o propósito de construir aquele que seria o primeiro espaço museológico de cabos submarinos portugueses, com todo o potencial turístico e económico a ele inerente.

Tendo em conta o exposto, o Grupo Municipal do PSD/CDS-PP/PPM, propõe que a Assembleia Municipal aprove este voto, recomendando às entidades públicas envolvidas, em especial ao Governo Regional dos Açores que se empenhem de forma efectiva na concretização deste projecto de musealização da Horta dos Cabos Submarinos, cedendo, de facto e a breve trecho a “Trinity House” ao espaço museológico dos cabos submarinos, classificando aquele imóvel como património de interesse público regional, procedendo às respectivas e necessárias obras e, ainda, promovendo a construção do “Memorial da Alagoa”, elemento arquitectónico para assinalar o local onde amarraram os primeiros cabo-submarinos.

Mais se propõe que deste voto se dê conhecimento à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, ao Governo Regional dos Açores, à Câmara Municipal da Horta, ao Grupo de Amigos da Horta dos Cabos Submarinos, à Associação dos Antigos Alunos do Liceu da Horta e aos Órgãos de Comunicação Social locais.

Horta, 26 de Setembro de 2014

Pelo Grupo Municipal